domingo, 13 de dezembro de 2009

Pra ver a banda passar...

Lembro-me que outro dia, caminhando pelas ruas apressadamente, fui atraída por uma melodia agradável que parecia vir de uma casa ao lado. Por um momento, senti como se o calendário marcasse o mês de junho, com aquele clima harmonioso embalado pelo saxofone que soprava melodicamente cada verso daquele hino. Na verdade, um fenômeno acústico que me atraiu até a calçada e me fez parar por alguns segundos. Mas foi só. Naquele momento eu não tinha o tempo suficiente para ficar inerte simplesmente para ouvir um saxofone ensaiar algo que todos os anos os devotos cantavam e eu já sabia de cor.

E aí no decorrer do dia guardei comigo a sensação de poder ouvir uma banda de música e me deixar levar até a calçada da igreja e acompanhar o hino de Santo Antônio, tocado com tanta fé e devoção. Afinal de contas, houve um tempo em que eu corria para ouvir, batia o pé e balançava com a cabeça a cada música que a banda tocava. E na frente da igreja eu via a banda tocar e corria todas às vezes para ver a banda passar.

Desde 1958, a cidade de Marcelino Vieira – RN acostumou-se com a banda de música. Na verdade, mais parece um caso de amor ritmado pela religiosidade e intensificado pelo gosto de ver a banda passar, a cada festa de Santo Antonio.

Saxofone, clarinete, contrabaixo, trompete... instrumentos bem conduzidos que levam às ruas, além da música, uma legião de pessoas que vão da prefeitura até a igreja Matriz na cadência desta tradição. E como se fosse um ritual, logo após as novenas lá se vão os fiéis de Santo Antonio seguir com lealdade e orgulho, aquela banda de música que marcha até o coração da cidade, onde as crianças correm para brincar nos parques, comprar algodão-doce ou mesmo comer cachorro-quente.

Na festa de junho, acompanhar a banda é praticamente uma promessa, e paga de muito bom grado, seja após a novena, seja às cinco da matina, ou no pingo do meio-dia. E aí, tem pessoas que correm para a calçada e acenam com a mão, outras que abrem a porta de casa com cara de sono, mas acompanham mesmo assim, e tantas outras, que mesmo enfadadas pelo forró da noite, saem de madrugada arrastando a sandália sem perder o compasso...

Ao som da banda, o encontro marchante de filhos, presentes e ausentes que se reencontram, se abraçam, e se encantam.

E hoje, ao ouvir a banda, há quem recorde de filhos ilustres que em tempos de outrora souberam levar a música com sentimento e maestria. E seja nas recordações saudosas de quem ouviu o amigo Beu, ou na memória recente de quem viu o amigo Zé de Crispim carregar  a tuba, para embalar aquela sinfonia, a banda de música faz parte de nossa história...

E quando há 51 anos nascia a primeira banda de música, lançava-se também o irresistível convite de ver a banda passar.

Nas alvoradas e nas salvas, gente que vive a lembrança de outrora, mas se encanta com os brios da nova geração, gente que canta com fé o ontem e o hoje, e gente que marcha orgulhosamente sobre este chão vieirense.

No mês de junho, quando o vento sopra as bandeirolas e os parques, mesmo que timidamente, chegam à nossa cidade, lá vem a banda de música enfeitar a nossa festa e lá vamos nós, acompanhando a tradição.

E não importa denominação. Se temos a banda de música já temos o encantamento desta Festa.

E se em qualquer dia desses, um saxofone soar em nossos ouvidos, é quase certo o anseio de ver a banda passar, e mesmo que a correria nos empurre, haverá o desejo de sair marchando e acompanhando a banda de música.


(Por Ivanúcia Lopes - Jornalista)

Lembrei que ainda não tinha postado este texto... (Publicado no jornal PAróquia em Missão- Marcelino Vieira - Junho/2009)


O INACABADO QUE HÁ EM MIM.

Eu me experimento inacabado. Da obra, o rascunho. Do gesto, o que não termina.


Sou como o rio em processo de vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo,


O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afeta com seu poder de vivência. Empurra-me para reações inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.


Por vezes o cansaço me faz querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o coração. É nesta hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos, previsíveis.


Mas quando me enxergo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil.


Melhor mesmo é continuar na esperança de confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão.


Eu sou inacabado. Preciso continuar.


Se a mim for concedido o direito de pausas repositoras, então já anuncio que eu continuo na vida. A trama de minha criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim. Um dia sou multidão; no outro sou solidão. Não quero ser multidão todo dia. Num dia experimento o frescor da amizade; no outro a febre que me faz querer ser só. Eu sou assim. Sem culpas.



Padre Fabio de Melo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

lembrança


Não se vá por aí sem lembrar de mim.

Não se vá por aí sem me levar, ao menos na lembrança.

E se esqueceres de me lembrar...que se vá.

Mas que me guarde num saquinho de lembranças.

domingo, 29 de novembro de 2009

Asas


"Mesmo que você não veja, tenho apenas duas asas coloridas que se batem para voar. O que eu sinto??! às vezes medo de cair, mas na maioria das vezes, um frio na barriga e a vontade de ir além."


Ande

Ande até que os pés se cansem.
Até que o sapato aperte.
Até que o sol queime ou a chuva resfrie.
Mas não pare no meio do caminho.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Gostaria


Queria compartilhar contigo os momentos mais simplese sem importância.
Por exemplo:sair contigo para passear, sentir-te apoiada em meu braço,
ver-te feliz ao meu lado
alheia a todo mundo que passasse.
Gostaria de sair contigo para ouvir música,
ir ao cinema,tomar sorvete, sentar num restaurante diante do mar,olhar as coisas, olhar a vida, olhar o mundo despreocupadamente,e conversar sobre "nós" – esse "nós" clandestino que se divide em "tu e eu"quando chega gente.
Encontrar alguém que perguntasse: "Então, como vão vocês?"
E me chamasse pelo nome,
e te chamasse pelo nome
e juntasse assim nossos nomes, naturalmente,na mesma preocupação.
Gostaria de poder de repente te dizer:Vamos voltar pra casa...
(Como se felicidade pudesse ser uma coisaa que tivéssemos direito como toda gente)
Queria partilhar contigo os momentos menores da minha vida, porque os grandes já são teus.
Poema de JG de Araujo Jorgedo livro – A Sós – 1958

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Minhas palavras


Não me faças desistir dessas palavras, nem me forces a desdizê-las.

Negá-las seria trair-me, possuí-las seria prendê-las.

Eu as tenho livres, leves, loucas. Muitas ou poucas.

Tenho palavras ruidosas, rudes e melosas.

Palavras emudecidas e gritantes.

Palavras próximas, confusas e distantes.

Palavras doces, transparentes e roucas.

Palavras, fortes, frágeis e passageiras.

Palavras firmes, doídas, mas verdadeiras.

Tenho palavras enormes, monossílabas, e compostas.

Tenho palavras sinônimas e opostas.

Tenho palavras vencidas, dormentes, sufocadas.

Palavras ao vento, ao nada e ao relento.

Palavras comuns, no papel e pensamento.

Palavras estilizadas, caprichosas ou enfeitadas.

Palavras tranquilas, permitidas ou enjuadas.

Palavras nervosas, tristonhas ou extasiadas.

Palavras em cantos, em prosa ou em versos.

Palavras sentidas, consentidas, permitidas.

Palavras roubadas, enfraquecidas, desprezadas.

Palavras que sobram, que faltam ou completam.

Palavras esquecidas, divididas, recordadas.

Tenho palavras famintas, doloridas e abusadas.

Tenho palavras em excesso, repetidas ou remendadas.

Palavras aos gritos, murmuradas ou escritas.

Tenho palavras. Simplesmente palavras.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

ACALMA

Quando o tempo é de confusão/ mantenha a calma no seu coração/ mantenha a calma – calma/Acalma - você já chegou aqui/ Calma - para prosseguir./ A fé para botar o pé no caminho a conquistar./ Quando o tempo é de armação/ Mantenha firme a sua mão/ Mantenha aceso o coração/ Atenção!/ Mantenha a alegria que você já é/ não deixe que eles venham destruir/O sonho por menor que for/ Seria destruir o AMOR. (ACALMA- GONZAGUINHA)